sexta-feira, 7 de maio de 2010

VIVER O BUSHIDO HOJE

          Falando sobre a cultura Japonesa, sempre é lembrada a imagem dos ilustres Samurai. O cinema popularizou a imagem deste guerreiro, que até então era exposto através de mitos e especulações. O filme "O último Samurai" (2004), ajudou com que muitas pessoas aumentassem seu apreço pela filosofia desses antigos guerreiros. O Bushido  (武士道; 武士 = Guerreiro, 道 = Caminho), o código de conduta e ética do guerreiro samurai, atraiu os olhares do mundo. E várias pessoas passaram a se aprofundar em estudos sobre o interessante e atraente tema.

          Os samurais foram os guerreiros do antigo Japão feudal. Existiram desde meados do século X até a era Meiji no século XIX.

          O nome "samurai" significa literalmente, em japonês, "aquele que serve". Portanto, sua maior função era servir, com total lealdade e empenho os daimyô (senhor feudal) que os contratavam. Em troca disso recebiam privilégios terras e/ou pagamentos, que geralmente eram efetuados em arroz numa medida denominada koku (200 litros).

          Inicialmente, os samurais eram apenas coletores de impostos e servidores civis do império. Era preciso homens fortes e qualificados para estabelecer a ordem e muitas vezes ir contra a vontade dos camponeses.

          Posteriormente, por volta do século X, foi oficializado o termo "samurai", e este ganhou uma série de novas funções, como a militar. Nessa época, qualquer cidadão podia tornar-se um samurai, bastando para isso adestrar-se nas artes marciais, manter uma reputação e ser habilidoso o suficiente para ser contratado por um senhor feudal.

          Assim foi até o xogunato dos Tokugawa, iniciado em 1603, quando a classe dos samurais passou a ser uma casta. Assim, o título de "samurai" começou a ser passado de pai para filho.

          Após tornar-se um Bushi (guerreiro), o cidadão e sua família ganhavam o privilégio do sobrenome. Além disso, o Samurai tinha o direito (e o dever) de carregar consigo um par de espadas à cintura, denominado "daishô": um verdadeiro símbolo do status do Samurai. Era composto por uma espada pequena (Wakizashi), cuja lâmina tinha aproximadamente 40 cm, e uma grande (Katana), com lâmina de 60 cm. Todos os samurais dominavam o manejo do arco e flechas que por muitos anos foi sua arma principal de batalha. Usavam também bastões, lanças entro outras armas mais exóticas.

          Havia uma máxima entre eles: a de que a vida é limitada, mas o nome e a honra podem durar para sempre. Por causa disso, esses guerreiros prezavam a honra, a imagem pública e o nome de seus ancestrais acima de tudo, até da própria vida. Para um samurai a vergonha e a derrota eram superiores à dor da morte.

          A morte, para o samurai, era um meio de perpetuar a sua existência e de manter a honra intacta. Tal filosofia, sua disciplina rigorosa, aumentava a eficiência e a não-hesitação em campos de batalha, o que veio a tornar o Samurai, segundo alguns estudiosos: uns dos mais letais guerreiros da antiguidade.

          Os ocidentais leigos geralmente avaliam os samurais apenas como guerreiros rudes e de hábitos grosseiros, o que não é verdade. Os samurais destacaram-se também pela grande variedade de habilidades que apresentaram fora de combate. Eles sabiam amar tanto as artes como a esgrima, e tinham a alfabetização como parte obrigatória do currículo. Muitos eram exímios poetas, calígrafos, pintores e escultores. Algumas formas de arte como o Ikebana (arte dos arranjos florais) e a Chanoyu (arte do chá) eram também consideradas artes marciais, pois treinavam a mente e as mãos do samurai. Caminhos de refinamento espiritual relacionados ao Zen.

          O Bushido surgiu incorporou à história do Samurai durante os períodos Heian a Tokugawa. Seu código de honra é embasado em sete princípios fundamentais (quais iremos tentar aprofundar adiante):

Justiça (Gi)
Coragem (Yuu)
Compaixão (Jin)
Cortesia (Rei)
Sinceridade (Makoto)
Honra (Meyo)
Lealdade (Chuugi)


          Sua origem está ligada e embasada ao Budismo, ao Xintoísmo e ao Confucionismo. Do Budismo Zen, herdou as práticas meditativas que traziam o desapego pelas questões materiais e o medo da morte. Do Confucionismo herdou a lealdade ao Daimyô (senhor feudal), a relação com a sociedade e a ostentação da honra de sua família. das linhas que regem as relações entre as pessoas (Mestre e Discípulo, Sempai e Kohai, pai e filho, irmão mais velho e mais novo, marido e mulher). Do Xintoísmo trouxe o respeito com sua pátria, e a veneração ao elementos da natureza. Respeito ao espírito que está presente em todos os seres, aos ancestrais, à tradição, as armas e utensílios em geral (Aparelhos de chá, materiais de escrita, etc. E principalmente a Espada).

Bushido (uma breve esplanação)


                                                 

  • Justiça (Gi): Só existe o certo e o errado; Não existe meio termo quando se trata da Justiça; Não acredite na Justiça que emana dos outros, acredite apenas na sua própria Justiça. Na justiça que emana através de seus próprios atos de retidão.
  • Coragem (Yuu): Mantenha sempre uma postura sempre mais discreta que seus colegas no cotidiano. Numa emergência, porém, adiante-se e se ofereça para fazer até mesmo as tarefas que os demais repudiam; A coragem heróica é inteligente e forte, substitua o medo pelo respeito e a precaução.  Valoroso não é aquele que entra em todas as batalhas, mas aquele tem discernimento de lutar por ideais mais elevados.
  • Compaixão (Jin): Seja compassivo e ajude as pessoas em qualquer oportunidade, caso a oportunidade não surja, saia do caminho para buscá-la. Sempre existe alguém precisando de sua ajuda.
  • Cortesia (Rei): Sem mostra direta de respeito não somos melhores que os animais. Devemos sempre ser corteses mesmo com nossos inimigos (principalmente com eles); Devemos ser admirados não pela força, mas sim pela maneira como tratamos as pessoas. Quanto mais bravo e ilustre é o Guerreiro, mais gentil e bondoso ele é.
  • Sinceridade (Makoto): Não existem duas palavras. Falar e fazer são unos. Não existem duas palavras. Devemos honrar nossos compromissos com as pessoas e consigo mesmo. Ser transparentes na forma de agir, pensar e se expressar assumindo todos os riscos. Demagogia, diplomacia de expressão são ultrages a este princípio.
  • Honra (Meyo): Não existe um juiz de nossas ações a não ser nós mesmos; Todas nossas decisões são reflexo do que somos na realidade; Não podemos ocultar-se de nós mesmos.
  • Lealdade (Chuugi): Assumir um compromisso significa realizá-lo: Devemos ser fiéis aos nossos responsáveis e cuidar  com a vida daqueles que de nós dependem; A Palavra é como uma sombra que o segue onde quer que você vá.

O Bushido Hoje


         Passados nove séculos desde que foi fundamentado e adotado como Caminho, o Bushido continua sublime como uma estrela brilhante.

         Tudo o que sabemos hoje sobre os Samurai, são relatos históricos  e contos que vêm de várias gerações. Acarretando cada vez mais mística à imagem desses lendários guerreiros. Porém, é possível manter a postura de um Samurai nos dias atuais?

          Muitos ortodoxos afirmam que o Bushido é algo que ficou apenas no papel mesmo no Japão antigo. Sabemos também através dos relatos da história, que nem todo o Samurai foi uma figura ilustre. A história dos grandes heróis lendários, existiam passagens obscuras de escândalos, desvios sexuais de conduta, tirania, abuso de poder, etc.
         
          Contudo, não podemos podemos relevar esses fatos, pois cada um faz o próprio legado. Viver o Bushido, não é sinônimo de viver como um Samurai. O Samurai foi uma classe guerreira que existiu por uma necessidade, e cumpriu seu ciclo na história até deixarem de existir. Porém, a tradição marcial de seu legado continua viva.  Pois as Artes Marciais continuam a ser transmitidas.

         Desde que Bugei fez sua transição para Budô, o Bushido sobreviveu como um Norte, uma filosofia de vida para quem nele acredita. É uma filosofia tão abrangente, que mesmo aqueles que não segue um Caminho Marcial pode experimentar filosofia de moral e ética em sua vida.

         Existem pessoas, que mesmo sem nunca haverem estabelecido contato com o mundo marcial, são mais dignos de serem chamados seguidores do Bushido do que muitos praticantes. Pessoas que estabelecem seu legado com um caráter sólido e polido. Deixam sua marca positiva pelos bastidores da sociedade.

          Presenciamos todo os dias através dos meios de comunicação, o aumento contínuo da violência humana, o desvio de caráter que assola a sociedade, e vem o pensamento: "O que posso fazer sozinho para mudar uma sociedade em ruínas?". 

           Se pensarmos assim, nada mudará. Não podemos mudar o mundo, mas podemos começar mudando a nós mesmo. Então, porque não começar hoje mesmo? Desperte o Samurai que existe dentro de você, tenha o Bushido como seu Norte. Muitas pessoas são Samurais sem mesmo saber, sem nunca terem tocado uma espada ou saberem lutar. São Samurais por seu caráter ético e pela sua compaixão para com o próximo, algo mais louvável do que tomar várias vidas em combate.


          Existem muitas formas de ser um guerreiro, não somente através da Espada. Cada um que possui um ideal de compaixão para com o próximo, imparcial e honesto, que haja de forma despretensiosa é um Guerreiro. Este é o significado da Guerra Espiritual neste mundo assolado por Guerras de interesses.
         
          Este texto é apenas uma esplanação superficial. Como todo texto opinativo é repleto de opiniões e convicções pessoais. Contudo, para uma visão mais aprofundada eu indico o livro: Gambaru - Claudio Ayabe.

4 comentários:

Nhalê disse...

Adorei a postagem, Eduardo-san!
Queria ajudar acrescentando o que nos foi passado sobre a origem da palavra Samurai, diferente do que nos é levado a crer, Samurai não quer dizer guerreiro, mas sim aquele que serve, servir em um conceito mais elevado.
Domo Arigato!

Manjimaru Kenshi disse...

Eu quem agradeço pela sugestão Alê-san. Providenciei o complemento ^^
Domo Arigato Gozaimashita

Leonardo disse...

cara teria como você passar seu e-mail? me interessei muito pela sua postagem, obrigado

Deshi Eduardo Lara disse...

Olá Leonardo!!!
Meu email é eduardollara@gmail.com

Um abraço