quinta-feira, 13 de maio de 2010

Lendas do Japão

A história de um velho lenhador
(Crédito das imagens: Cláudio Seto)
Era uma vez, aconteceu um fato insólito em Miho (hoje província de Gifu). Havia um velho lenhador que morava junto com sua velha companheira, numa pequena casinha ao pé da montanha. Apesar de pobres, viviam agradecendo aos deuses da Natureza por ter lhes dado muita saúde e longa vida. Seu único lamento era o de não ter tido filhos na juventude. Agora, com a idade avançada, sentiam uma inexplicável solidão. Como se faltasse algo para preencher os últimos anos de suas vidas. Para consolar o irremediável, o casal mergulhava nas lembranças românticas e trazia à tona saudosos momentos dos tempos dourados da mocidade.
Certa ocasião, o velho lenhador saiu para catar galhos de árvores no mato e, levado por nostálgicas lembranças, resolveu percorrer as antigas trilhas do seu passado como jovem lenhador. À medida que caminhava, foi notando que a paisagem estava se tornando diferente do que conhecia, até que, em dado momento, já não sabia onde estava.
Cansado de andar, parou junto a uma fonte de águas cristalinas e resolveu matar a sua sede. Com as mãos em formato de concha, bebeu lentamente aquela água gostosa, que desceu banhando sua seca garganta. De repente, sentiu que sua canseira havia desaparecido e que seu corpo experimentava uma sensação de vigor há décadas perdida.
O lenhador olhou para sua imagem refletida na água e levou um susto. Sua farta barba branca havia desaparecido juntamente com as rugas. No lugar da pele flácida e enrugada, vibravam músculos cheios de energia. Um milagre! O velhinho havia recuperado toda a sua mocidade! Estava novamente com aspecto de quem tem 18 a 20 anos!
Feliz da vida, com um sorriso que só os descobridores da fonte da juventude possuem, o lenhador voltou para casa cantarolando.
Lá chegando, quase matou a velhinha de susto. Ela não acreditava no que via. Aquele moço lindo, por quem se apaixonara há cerca de 50 anos, estava sorridente em carne e osso a sua frente.
O “ex-velhinho” tratou de tranqüilizá-la contando toda sua milagrosa história. A velha botava as mãos na cabeça e dizia, eufórica: “Onde fica essa fonte? Dessa água eu beberei aos montes!”. O lenhador explicou o caminho detalhadamente e foi dormir. Queria descansar, pois a carga emocional havia sido demais para um dia só.
Antes mesmo de o sol raiar, a velhinha saiu em busca da juventude perdida. Ela chorava e ria ao mesmo tempo. Não conseguira dormir, pois estava ansiosa em saber que também se tornaria bela e formosa.
Ao despertar com o canto dos pássaros, o lenhador percebeu que sua mulher tinha saído em busca do rejuvenescimento nas límpidas águas da milagrosa fonte e ficou em casa preparando um gostoso almoço para comemorar uma nova lua-de-mel. Porém, o tempo foi passado, passando, passando, a comida esfriando, esfriando, esfriando, e nada de a velhinha voltar. Não agüentando mais a pressão da ansiedade, o velhinho remoçado correu para a floresta.
Gritou chamando a velhinha, porém somente o eco respondeu o seu apelo.
Horas depois, cansado de tanto procurar pela companheira, ele fez uma pausa. Desiludido na procura, o lenhador aproximou-se da fonte para descansar. Nisso, ouviu, em um arbusto, o choro de um bebê. No primeiro momento, pensou que se tratava de sua imaginação, mas, como o choro persistia, resolveu verificar.
Entre as folhagens que margeavam a fonte, havia uma criança abandonada. “Uma menina com poucos meses de vida. Quem teria feito uma coisa desalmada dessas?” Pensando isso, o lenhador pegou o bebê.
A menina era tão novinha, que ainda não sabia falar, mas havia um magnetismo em seus olhos que revelava uma experiência de longa data. Tomado de profunda emoção, o moço entendeu tudo:
– Essa não! É você, minha velhinha! Foste muito afoita à fonte e bebeste água demais. A sede da eterna juventude fez você beber com exagero, agora és uma recém-nascida!
O lenhador deu um suspiro e caminhou de volta para casa. O amor romântico que o casal tanto sonhara não seria mais possível. Com a menina nos braços enquanto caminhava, o rejuvenescido lenhador começou sentir um amor paterno. Compreendeu que era hora de cuidar e proteger, como pai, aquela que, por tanto tempo, foi sua companheira. Um presente da natureza: uma filha que nunca tivera a oportunidade de ter.

Fonte: http://www.nippobrasil.com.br/2.semanal.lendas/index.shtml

A Batalha do General Yogodayu

Durante o reinado do imperador Shirakawa, entre os anos 1073 e 1086, existiu um general chamado Yogodayu. Ele tinha construído um forte para abrigar seu pequeno exército nos arredores de Yamato, localizado perto da montanha de Kasagi.
Certa ocasião, o forte foi atacado pelo exército do seu cunhado, que o detestava. O inimigo estava determinado a acabar com Yogodayu e com toda sua tropa. Massacrado pelo ataque surpresa, o general refugiou-se na montanha com os 20 homens que restaram de seu exército.
Escondidos numa caverna, passaram dois dias temendo sererem descobertos. No terceiro dia, Yogodayu saiu cuidadosamente para se certificar se ainda estavam sendo perseguidos. Quando percorria os olhos entre os arbustos à procura de inimigos, viu uma abelha presa numa teia de aranha, debatendo-se desesperadamente para ficar livre daquela situação. De alguma maneira, o general identificou- se com a abelha, pois a situação de ambos era um tanto parecida. Então, com um pequeno galho, libertou a abelha de seu cativeiro e deixou-a voar em liberdade.
– Vai, abelha, e boa sorte. Não sei se terei a mesma sorte que você – disse o general, vendo a abelha desaparecer entre as árvores.
Nessa noite, Yogodayu sonhou que um jovem guerreiro, trajado de armadura de cores predominantemente preta e amarela, que apareceu diante dele e disse:
– General, vim lhe agradecer e retribuir por ter-me salvo a vida hoje de manhã.
– Mas quem é você, guerreiro? – perguntou Yogodayu.
– Sou a abelha que você libertou da teia mortal daquela aranha traiçoeira. Profundamente agradecido, desejo ajudálo a derrotar seu inimigo e a recuperar seu forte.
– É um sonho impossível, só me restaram 20 homens. O que posso fazer contra um grande exército?
– Siga fielmente a instrução que vou lhe passar e verá que é mais simples do que possa imaginar.
– Para enfrentar meu inimigo, eu preciso de um batalhão de fortes guerreiros.
– Que tal contar com 10 milhões de abelhas da montanha de Yamato lutando a seu favor? Para isso, você terá que construir uma casa de madeira, no melhor local para enfrentar o exército de seu cunhado. Depois, seu homens devem encontrar centenas cabaças secas, para que nós, abelhas, possamos nos esconder nelas. Vocês devem ficar morando na casa e deixar que o inimigo saiba que estão lá. Com certeza virão atacar e, nesse momento, acabaremos com eles.
Yogodayu acordou impressionado com seu sonho. Relatou aos seus subordinados o que tinha sonhado e falou de sua disposição em pôr, de imediato, o plano em ação. Os guerreiros de Yogodayu, deixando suas armaduras na caverna, saíram sorrateiramente de dois em dois e foram às aldeias vizinhas procurar ajuda e material para a construção da casa.
Passados 30 dias, apenas oito guerreiros trazendo madeiras e ferramentas retornaram à caverna, onde o general havia ficado no aguardo. Os demais debandaram, julgando que o general Yogodayu havia enlouquecido.
Os oito guerreiros, então, construíram uma casa no vale e conseguiram 2 mil cabaças, que foram penduradas no teto da construção. Logo, as abelhas foram chegando em quantidade incontável.
Um homem de Yogodayu foi enviado ao forte para espalhar a notícia de que os refugiados estavam escondidos numa casa no vale.
Dois dias depois, o exército de seu cunhado atacou a casa de madeira. Cercaram completamente o refúgio e derrubaram as portas e as janelas. Qual não foi a surpresa serem recebidos por milhões de abelhas, que voaram sobre o exército inimigo, picando-lhes os rostos e até cegando- os com suas ferroadas.
O exército inimigo fugiu em desesperada debandada. Calcula- se que, para cada guerreiro inimigo fugitivo, houve 3 mil abelhas perseguidoras. Muitos levaram tantas picadas, que acabaram ficando dementes. Outros morreram de febre com o corpo todo inchado.
Assim, com o inimigo completamente derrotado, Yogodayu retomou o forte. E, para comemorar o evento, construiu um santuário na montanha de Kasagi. E ordenou ao povo que todas as abelhas mortas durante o combate fossem coletadas e enterradas no santuário. Anualmente, até o fim de sua vida, Yogodayu foi ao santuário para reverenciar as abelhas e demonstrar sua gratidão.

Um comentário:

Nhalê disse...

Incrível história , Eduardo-san!
muito cheia de significados.
Continuo adorando teu blog!
Abraços